Terça-feira, 23 de Junho de 2009

O prólogo dos prólogos para uma historia sobre baratas, amnésias e

No início, era apenas um branco. Desses, que apagam tudo o que antes estávamos pensando em dizer em pensar em agir ou qualquer outra ação concreta ou abstrata. Porque existe um limite entre os pássaros e os morcegos em que é preciso ter muito mais do que coragem para atravessar.

No início, eu estava dizendo, no início era apenas uma sensação de esquecimento, e que me fazia assim, um livro de amnésias, afogado onde jamais poderia alcançar qualquer tipo de recordação antes dessa vida, entre esse quarto, entre essa cidade: urbanífera, chuvosa e piterodactila.

Ela devorava lentamente o branco do leite em pó umedecido no garfo, com suas pequenas patas, quando a esmaguei contra a minha sandália. Espirrou de dentro de sua casca grossa uma grossa consistência branca que se misturou ao branco do leite no garfo. Havia algo entre aquele cruzamento de substâncias pastosas e aquele corpo morto de inseto que começava a emanar lembranças de outro momento que havia me esquecido, e que quando recordei, também descobri porque afinal me fizeram esquecer.

Não fosse ver aquele inseto devorar desesperadamente o leite endurecido no garfo que havia deixado na pia, não fosse aquela barata, jamais haveria me lembrado.

Eu me vi dentro do quarto branco, vestindo roupas brancas, porém sujas. Todos os dias, eles entravam com um balde de baratas mortas, estouradas e exalando um odor forte.
E me amarravam. A princípio, eu resistia. Mas a rotina de todos os dias me espancarem até que eu cedesse ou que desmaiasse foi me cansando e em alguns dias eu já aceitava sentado eles me forçarem a comer todo aquele balde de baratas úmidas, imundas e salgadas. Era minha única refeição no dia. Tive crises de vômito e muita diarréia logo no começo, depois meu organismo foi se acostumando e assim como eu, já aceitava sem grandes reações os banquetes de baratas.

Eles vinham sempre os três. Uma mulher nariguda, suada e fedida a sebo, magra demais, aparentando cerca de cinqüenta anos, um homem com pêlos crespos por todo o corpo, inclusive no rosto e um rapaz, que devia ter lá pelos seus quinze, no máximo dezoito. Todos três tinham caudas peludas e longas. Um dia, quando me traziam rotineiramente a minha ceia de baratas, percebi que o rapaz, me olhava de um jeito diferente. Com um ar de pena, talvez. Percebi que ele, ao contrário dos outros dois, parecia não gostar do que estava fazendo.

A verdade é que jamais entendi porque estava ali, como fui parar naquele lugar. Não me lembro de uma infância, de ter pais ou coisa do tipo. Minha primeira memória é sobre esse quarto, sobre esses três. De alguma forma, tinha noção do mundo e das coisas, mas não havia em mim lembranças pessoais de nada. Apenas estava ali.

Não me lembro como sai daquele lugar, como cheguei a essa vida, apenas me lembro de já estar aqui e não mais naquele quarto mofo e branco. Vez em quando ainda encontro baratas pela casa e vou juntando uma por uma, até encher um pequeno pote, onde posso sempre desfrutar de meu acostumado sofrimento que se transformou em satisfação.

Sábado, 6 de Junho de 2009

Sobre bandas de garagem e um pouco de soda cáustica: o Jovem Messias Marciano existe na quarta-feira

Eu, Saulo, Adnoel e Raoni numa madrugada sonâmbula em dezembro de 2007

Caminha como se atravessasse a entropia do tempo a cada passo, entre as luzes raras nas esquinas da cidade porto. Num ritmo asmático, cúmplice de sua desrelfexão sobre a noite, o jovem messias marciano mergulha em lembranças de tudo o que então absorveu: fábulas, consumos, dias, noites, versos, amores e dores e uma vontade inexorável da auto-inexistência.

Adentra no bar vazio pela quarta-feira e faz companhia as canções de Odair José, que emanam solilóquias entre a maré de redundâncias sentimentais comercializadas no pensar dos poucos que ali procuram qualquer coisa como “alémdasnossasmiseráveisdoresqueregurgitamosemtodososdiasdetodososanosdenossaspodresdoresecoreseexistências”...

A procura de um ambiente que o torne algo que não lhe faça de fantoche, do que já percebera ser um grande espetáculo, o jovem marciano resolve que irá cantar óperas urbanas do século XXI nas sextas e domingos, nos bares ambidestros da cidade porto. Regerá com guitarras e buzinas de carros de pipoca sua própria orquestra, insinuando homicídios a cada refrão. Assim ele pensa, conseguirá continuar a sobreviver nessa muito medonha jornada entre os leões ferozes e velozes que devoram a cada dia um novo pedaço de seu espírito de relâmpago desesperado...

Assim, ele caminha, atravessando buracos negros e vulcões cósmicos, a cada passo-canhoto que dá nas ruas de dias asmáticos...

Sábado, 30 de Maio de 2009

O Desabafo do Jovem Messias Marciano: entre Laranjas e Maçãs



Para Ensor

Ele caminha só, pelas areias de uma geografia conhecida. É fim de tarde chuvosa e o Jovem Messias Marciano acompanha em seus passos e em seu pensar o descompasso asmático do rio que copula em frenesi com a orla luminosa de outdoor’s da cidade porto. Caminha só, enquanto automóveis e motocicletas cospem a canção de seus motores, de suas vidas gonorrélicas e piterodáctilas. O céu cinza e inconsistente do fim de tarde psicótico da cidade porto é banhado por uma revoada um pouco mais cinza de pequenos pássaro-morcegos que mordem ferozes o oxigênio tragado a esmo pelo Jovem Messias...

Até quando construiremos jardins de natureza morta

para os senhores que aram o perfume do dia

com espadas de desespero que cortam suaves

nossas cabeças pensantes e desreguladas?!

Dessentiremos o calor das estrelas

nas noites robustas em que as equações nas areias do rio

apontarem caladas para o fim de todas as gigantescas desmesuradas paixões

que se aborrecerem odoríferas por minha singela e preguiçosa omissão.

Apanharei como leopardo aleijado

o teu coração das entranhas velozes do dragão

de sistema digestivo mecânico e oxítono.

Até quando sentirei omisso o aço sonoro se derramar sanguinário

no osso roído e seco dos que não se percebem

mas se destroem girando pulsantes no interior da caverna espacial

constituída de furacões?!

Meu vôo ao teu coração ateu não será destruído

pela titubeante jornada que sigo escrevendo hemorrágico

e alegre apesar de não me agradar com o sangue nos céus.

Não sei mais até quando sentir meu cérebro se desfazer

em diarréia mental enquanto escuto teu coração com fome

dormir ouvindo a espada refletir cachoeiras enferrujadas de desesperos

sobre os raios ultravioletas da luz do dia verde em película super 8mm.

Bem vindos todos nós a máquina do dia!

Celebremos entre laranjas e maçãs o carnaval dos tambores podres! Contemos histórias psicodélicas para dormir enquanto o globo gira vertiginoso e redundante, como uma linha de montagem espacial, enquanto as máscaras esqueléticas disputam desesperadas o cadáver dos andróginos enforcados.

Ele se retira do palco como se dormisse, ele acompanha sereno por seu caminhar as luzes amareladas de postes e casas das ruas de barro dessa cidade. Ouve ainda, distante, enquanto avança o silêncio sonoro de estupros e assassinatos, traições e prostituições. Ele se retira do palco como se dormisse... e apenas segue.

Domingo, 24 de Maio de 2009

Mais do mesmo (o fim de todas as coisas)

Para Saulo Márquez e seu pasquim das lástimas (parte1)

Exatamente o que sinto, como penso e como sou...

A última coisa que lembravam, é que estavam muito, muito sozinhos. Entre engarrafamentos desesperantes as seis da tarde e uma vontade inexorável de fuga, ele lembrava-se que talvez não era ainda a hora de estar ali e ela pensava que fora um grande erro a gravidez precoce, o casamento precoce, o mundo inteiro precoce.

Era um rapaz sozinho das cidades urbaníferas, que morava só, que não suportava acordar cedo, que ouvia no rádio do celular Chico Buarque. Não cabe aqui contar origens, motivos para estar ali. Talvez nenhum de nós tenha mesmo um motivo pra estar onde estamos, ele gostava de pensar assim...

Era dessas garotas, estudantes universitárias, que andava pela Praça da República nos domingos, amanhecida de mormaços e solamares da vida... era do tipo que não se prendia a “umcompromissooualgonecessariamentesérioseéquevocêpodeentenderessetipodecoisa”... não cabia a ela definir seu futuro tão cientificamente depois de tanta precipitação na vida. Vivia agora afundada num mar de solidão...

E se olharam assim como se pudessem se apaixonar, os dois, no semáforo do castanheira. Olharam-se como se pudessem sentir em si o que o outro sentia. Por alguns minutos, enquanto os olhos do semáforo eram vermelhos, centenas de vidas paravam a espera de qualquer coisa, por estarem em busca de qualquer coisa. Como máquinas a desligarem-se por um breve momento, talvez estátuas ou pinturas, consumiam alguns instantes de inércia onde não conseguiam se perceber entre as buzinas dos carros, das vans e dos ônibus. Uma ópera do século XXI sangrava anestesicamente naquele cenário tão comum pra todos nós, enquanto os dois, enigmáticos olhavam-se sabendo que seriam infelizes para sempre em suas vidas tão monólogas de si mesmas.


Saulo Márquez
cantos de alívio pelo que se foi,
cantos de espera pelo que há de vir.
*25/02/1987
*15/05/2009

Domingo, 5 de Abril de 2009

...

em primeiro lugar: o fim de todas as coisas
do amor do sexo, das coisas indecifráveis
que moram no meu íntimo profundo e desesperado

as batalhas as revoluções as guerras globais
o ciclo momentâneo da crise no espírito humano

em segundo lugar a regênese, a recriação
dos sóis e das galáxias num único suspiro,
científico, poético, um relicário enérgico de razão

em terceiro lugar a cooperação, o renascimento
num novo mapa, tecnologicamente sacro e
insubstitutivelmente harmonioso,

o prazer e o consumo na esfera de uma nova realização

o condutor para um novo progresso
onde o alcance da eternidade é apenas o começo
da mais longa de todas as existências

em último lugar o princípio...

Sexta-feira, 3 de Abril de 2009

Abril


Para ler ao som de “O Passeio da Boa Vista” do Legião Urbana.

“Matar-se é um charme ultrapassado”

Clei de Souza

Abril...

Quando o teu mundo ruir me chama de volta pra ele. Mas volta com aquele olhar sacana que tu davas quando fazias pouco de mim. Traz teu andar transparente de quem nem passou por aqui. Vem de noite como antes e traz teus cd’s, teus poetas e teu cheiro, vem com aquela camiseta regata e senta aqui pelo chão. Olha para o céu comigo e conta as estrelas pra mim, inventa um nome pra lua, enforca o tempo comigo, mas vem.

Abril...

Estou com saudade de teres saudade de mim. Onde estão os teus dilemas, tuas crises, tuas neuras? Andam enchendo alguém por aí? Será que cansaste de ouvir meu silêncio? Minha falta de assunto foi por medo de te falar o que não precisas ouvir. Tu pareces saber tudo e ao mesmo tempo és tão ingênuo. Sinto tua falta quando chove, quando venta, quando anoitece. Às vezes vejo o pôr-do-sol e acho que tu chegarás mas o que chega é o vazio que me agarra e me beija.

Abril...

Preciso partir, um dia tudo chega ao fim e se o teu tempo já passou por mim, está na hora de acabar.

Abril...

Quando o aeroporto me olhar quero estar distante de ti. Não quero chorar como agora, não quero puxar da carteira teu retrato, não quero escutar tua música.

Abril...

Vai ser só eu e minha bagagem, prontos pra voltar pra minha velha nova vida que deixei perdida no passado, doida de saudades minhas. Mas se um dia Abril, o teu mundo ruir, não te esqueças, me chama de volta pra ele, que eu vou.

Quarta-feira, 25 de Março de 2009

Paraíso Precipício: 13:23h – Pequenos Monólogos sobre dias e noites de guerra ao tempo


“Amanhã, como a milhares de anos, estarei vivo (os cabelos num novo incêndio, o corpo inconsútil no espaço) e, recomeçado, serei inacabado e breve...”
Age de Carvalho:

Entre mesas de bar, luzes vermelhas e sexo

A luz vermelha ao fundo, misturada a música e a bebida, injetava estranhas sensações...

Estranhas sensações agora: Injeções de luzes vermelhas, velhas melodias adentrando nas verdes e pétreas paredes...

Ia explicar algo sobre esperar e, parar de pensar. Não. Não dessa forma. Digo, as vezes não. Ultimamente eu tenho pensado assim todos os dias. Primeiro eu acordo. Desculpa. Não perguntei se você podia me escutar, pode? Que bom, obrigado. Então, primeiro eu acordo. Então penso e passo o resto do dia assim, fazendo o que deve ser feito sem pensar. Depois vem outro e outro dia, e tudo passa. É assim que eu espero entende? Se fico assim, rodando o copo por entre o circulo d’água que se forma abaixo dele na mesa é pra ficar de certa forma não pensando, enquanto vou vagarosamente me embriagando até perder a consciência inconsciente...

Estou a procura de tempo. Porque o tempo vai esmagando os dias que se passam uniformes e compactos que nem vejo o tempo passar...


Um dia após o outro

Ar condicionado do ônibus no limite, boca com cheiro de refrescante bucal, revistas em quadrinhos para ler na mochila e um sol pelo caminho que não adentra as profundezas gélidas do ônibus. Computadores ligados no escritório. Nas ruas mendigos, cheira-colas, ambulantes e todo o resto de gente que vai se condensando em ritmo em passos em vozes em ruídos em gemidos, como num culto ao fim do tempo...

O sol se põe róseo e ameno quando os ônibus passam lotados apertando algo além dos corpos de consciências inconscientes...

Agora estão todos desligados, máquinas de carne, assando nos coletivos, enquanto chove lá fora e as janelas estão todas fechadas...


De volta ao Novo dia:?

Digo confuso, bêbado e em órbita de um outro universo todas essas coisas porque desligo aqui, mas meio que de uma outra forma, ... não, não, eu sei, não dá pra entender um bêbado falando do tempo esmagado se afinal de contas o tempo não é sólido. E talvez seja esse o problema do mundo. Se pudéssemos prender as horas, os momentos bons em uma gaiola, na gaveta do armário do quarto ou quem sabe salvá-los no computador, consumiríamos o tempo que nos conviesse...


Love Will tear apart: agosto

Ela me abraça ternamente enquanto eu nada sinto a não ser prazer... O tempo ruiu a velha madeira da janela,não, não foram os cupins...

Estou indo como quem não sai do lugar...

Vida e morte todo o dia no paraíso-precipício das cores, dos prédios, dos cartazes e das luzes neons da cidade, pensamentos-porcelanas se desfazendo enquanto beijo animalesticamente o corpo gelado que dorme ao som do vento grave do ventilador. Lua de agosto que trouxe desgaste. Estou porre... Longe de onde tinha começado as desrelfexões, os delírios de um outro diálogo...
num outro lugar,
num outro tempo...