No início, era apenas um branco. Desses, que apagam tudo o que antes estávamos pensando em dizer em pensar em agir ou qualquer outra ação concreta ou abstrata. Porque existe um limite entre os pássaros e os morcegos em que é preciso ter muito mais do que coragem para atravessar.
No início, eu estava dizendo, no início era apenas uma sensação de esquecimento, e que me fazia assim, um livro de amnésias, afogado onde jamais poderia alcançar qualquer tipo de recordação antes dessa vida, entre esse quarto, entre essa cidade: urbanífera, chuvosa e piterodactila.
Ela devorava lentamente o branco do leite em pó umedecido no garfo, com suas pequenas patas, quando a esmaguei contra a minha sandália. Espirrou de dentro de sua casca grossa uma grossa consistência branca que se misturou ao branco do leite no garfo. Havia algo entre aquele cruzamento de substâncias pastosas e aquele corpo morto de inseto que começava a emanar lembranças de outro momento que havia me esquecido, e que quando recordei, também descobri porque afinal me fizeram esquecer.
Não fosse ver aquele inseto devorar desesperadamente o leite endurecido no garfo que havia deixado na pia, não fosse aquela barata, jamais haveria me lembrado.
Eu me vi dentro do quarto branco, vestindo roupas brancas, porém sujas. Todos os dias, eles entravam com um balde de baratas mortas, estouradas e exalando um odor forte.
E me amarravam. A princípio, eu resistia. Mas a rotina de todos os dias me espancarem até que eu cedesse ou que desmaiasse foi me cansando e em alguns dias eu já aceitava sentado eles me forçarem a comer todo aquele balde de baratas úmidas, imundas e salgadas. Era minha única refeição no dia. Tive crises de vômito e muita diarréia logo no começo, depois meu organismo foi se acostumando e assim como eu, já aceitava sem grandes reações os banquetes de baratas.
Eles vinham sempre os três. Uma mulher nariguda, suada e fedida a sebo, magra demais, aparentando cerca de cinqüenta anos, um homem com pêlos crespos por todo o corpo, inclusive no rosto e um rapaz, que devia ter lá pelos seus quinze, no máximo dezoito. Todos três tinham caudas peludas e longas. Um dia, quando me traziam rotineiramente a minha ceia de baratas, percebi que o rapaz, me olhava de um jeito diferente. Com um ar de pena, talvez. Percebi que ele, ao contrário dos outros dois, parecia não gostar do que estava fazendo.
A verdade é que jamais entendi porque estava ali, como fui parar naquele lugar. Não me lembro de uma infância, de ter pais ou coisa do tipo. Minha primeira memória é sobre esse quarto, sobre esses três. De alguma forma, tinha noção do mundo e das coisas, mas não havia em mim lembranças pessoais de nada. Apenas estava ali.
Não me lembro como sai daquele lugar, como cheguei a essa vida, apenas me lembro de já estar aqui e não mais naquele quarto mofo e branco. Vez em quando ainda encontro baratas pela casa e vou juntando uma por uma, até encher um pequeno pote, onde posso sempre desfrutar de meu acostumado sofrimento que se transformou em satisfação.





