quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Sobre asas no bolso e velhos dragões no peito:

Há, sobretudo à nossa frente,
a mais perfeita visão de um céu de chumbo
curvando-se sobre um horizonte de águas.
(Luli Rojanski, “Sob o Céu, no Trapiche”)


O quarto iluminado apenas pelo feixe de luz que atravessa timidamente do banheiro. O quarto escuro e abafado abafa as cores das paredes que outrora foram brancas e que agora se mistura a um verde de lodo e infiltrações que assim, vistas a meia luz lembram rachaduras num solo dum deserto qualquer ou até imaginário.

- Por onde?
- Estranho agora ter que te dizer dessa forma, sem te dizer, mas com você já sabendo
- Eu acho estranha essa tua sina de tentar falar como nos filmes
- Aforismos
- Babaquices
- Me desculpa por ser tão teu
- me desculpa por ser tão Teu

Os dois falaram assim, um num tom mais alto outro num tom mais baixo, mas diziam a mesma coisa, se desculpando pelo mar de possessões que os invade ao mesmo tempo em que se afogam num amor desesperado, avassalador...

- mergulhar
- domingo? Onde?
- Em ti?
- Em ti
- Mais uma dose?
- sim, sim


Iluminados não apenas pela luz que invadia o quarto possuíram-se uma vez mais como se nada mais houvesse e até sabendo que talvez a única forma de estar um com o outro para sempre seria apenas e simplesmente possuindo-se uma vez mais num convulsivo choque de corpos que buscavam o que já sabiam como encontrar no par, como leões que por instinto sabem o que precisam caçar.


- é que to num outro momento, algumas coisas cansaram, não exatamente você
- você também não me cansou...


Despedaçaram-se porque antes eram um. Como num velho filme numa velha cena já vista imaginada em tantos outros lugares do mundo ele vestiu as roupas e caminhou numa manhã de domingo ensolarada. Os raios mornos do sol levemente bronzeavam os restos de prazer em seu corpo que agora seguia em passo confuso para onde se misturaria ao resto das pessoas que caminhavam pela praça com suas crianças, cães e derivados. Ele trazia consigo um velho dragão no peito e asas no bolso da calça. Esperaria o momento certo de voltar a voar o arcanjo Miguel. Enquanto isso seguia em passos despassos e fazia-se assim de homem-massa no meio da multidão.

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Memorial do vôo migratório: o fruto e a cirurgia

Foi então que resolvi mergulhar. Mergulhar absoluto entre relâmpagos e precipícios.

Com a barba por fazer, acordou amargo e amargo seguiu pro seu emprego de oito horas diárias. Entre perfumes bafos músicas e apertos seguiu no coletivo pelo calor insuportável já por volta de 8 da manhã, estava engordando, pensou.

Na noite passada, adormecera na sala, com o computador ligado em sites pornográficos, uma garrafa de vinho inacabada, frustrações e desejos escorrendo silenciosos ao som de uma Billie Holiday leve e terna. Adormeceu dizendo certo nome enquanto começava a sonhar que saía na rua nu.

Preparou o texto do boletim interno da empresa como um analfabeto sente dificuldades em escrever o próprio nome, regado a doses homeopáticas de café preto e de bolachas.

Um estranho enjôo subia-lhe a garganta vez ou outra e saia para fumar na área do último andar do edifício.

Um aquário, pensou. Um insano aquário de almas sufocadas, travestidos de andróides e que outrora também foram plantas submarinas que quando evoluíram a anfíbias viram que podiam tornar-se terrestres e quando terrestres travestiram-se de ferro para depois tornarem-se aço e de aço passaram a máquina num piscar de olhos...

Como nada de comum acontecia no dia, decidiu mergulhar pelos céus. Do último andar dum prédio qualquer do centro da cidade, num crepúsculo róseo e morno, mergulhou absoluto, enquanto a chuva caia e cortava a superfície sólida do ar com relâmpagos canhotos.

Piterodactilo, devorou cada bolha de oxigênio que pôde, enquanto Rebeca acenava com seus braços-galhos que outrora foram mecânicos.

Despediu-se das dores dos desesperos e afundou conscientemente numa nova forma, não de liberdade, porque amava Rebeca, mas seguiu absoluto com um fruto medonho no peito apodrecendo.

A cada segundo que o mundo consumia vivia eternidades em seu vôo de pássaro intumescido de existências. Voou por toda a via láctea e conheceu questões que nos jamais serão reveladas em nossa podre crueldade e azeitada infelicidade.

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Medonho Fruto



Acordei entre flores azuis e cinzas as quais nunca antes tinha visto. O céu estava como se estivesse rachado de nuvens vermelhas, pude ver da janela. Rebeca era desse tipo de andróide que se envolve nas noites de sexta com anjos e com leopardos, vez ou outra devora dragões. Acordei cercado dessas flores enquanto Rebeca serenamente repousava seus circuitos ao meu lado. Ela havia fugido na noite passada de paparazos e de suas câmeras big brotheanas. Rebeca me procurou como a muito tempo não fazia. Estava exausto da sexta feira com os circuitos prestes a entrar em curto. De repente ela me liga e pede pra me visitar. Diz que está cansada do espetáculoquecriouemanosdefestasesolidõesquelhefezassimdemáquinadecalcularfeticheseposesprafotosdejornaisenelsonrubens. Havia algo de diferente quando transamos e eu pude sentir o cheiro de folhas nos seus cabelos e um gosto de folhas na sua língua. Rebeca estava deixando sua condição de máquina e travestia-se de vegetal. E foi assim que acordamos os dois maquinários, nascendo de nós um lindo jardim que extinguia voraz os circuitos e o controle robótico da vida. Nos jornais só o que se falava era que um medonho fruto nascera da promíscua relação de Rebeca. Que talvez essa fuga pudesse gerar uma nova moda de transformismo das máquinas em plantas. Que deveríamos ser presos por causar subversão as normas. Que não havia motivo para tanto pois estávamos numa democracia e éramos livres.

sábado, 22 de agosto de 2009

Naufrágios do espírito


Para os amores invertebrados, que insistem em sobreviver

Eu de Enceládo
Eu de Saturno
E tudo vazio no céu
E no mar
E nas lágrimas de adeus sideral...
(Carla Nobre – Em Cristal de Gêlo)

Feridas em brasa por dentro do grito
EU ando preocupado contigo, comigo. Preocupado no sentido de que estamos num ponto onde não queríamos estar. Olha, eu espero que você me perdoe, por ser assim, re-pe-ti-ti-vo, sempre que te digo. Desculpa minha dificuldade em articular as palavras, minha falta de objetividade. O mundo em que vivemos exige tanta o-b-je-ti-vi-da-de que eu fico perdido tentando comunicar com palavras minhas emoções e outras coisas pra você. Ok, estamos num ponto onde ninguém gosta de estar. É que anda fazendo tanto sol esses dias, tanto sol, que tudo vem me sufocando quando estou em casa, no trabalho ou em qualquer outro lugar. Agosto e julho são meses infernais nessa cidade. Eu podia tentar te falar de outro jeito, sei lá, Acho que poderia ser por versos, mas você não gosta de poesias. Então fico tentando te dizer assim mesmo, pelo espírito, sem muita objetividade, que os pássaros, os morcegos, os cisnes e os dragões estão todos embriagados por dentro do desespero que venho sentido. Tem um carnaval de tambores podres tocando funerariamente por dentro de mim e que vem me consumindo a cada passo canhoto dos meus dias. É que estamos mesmo ainda como pessoas que ardem e se esvaem em procuras, como na poesia. Nós estamos intumescidos de posses e de vaidades. Estamos nos despedaçando enquanto a roda do tempo gira vertiginosamente por sobre nós. Você não me entende não é? Você entenderia se eu te dissesse que as coisas não estão bem, que precisamos discutir a relação que eu ouvi coisas que você também ouviu coisas que isso que aquilo que enfim. Você entenderia se a comunicação fosse seca, mas eu não sei dizer dessa forma.

Pequenas estrelas que falam de dores
Olha, o céu, tão nu. Você, eu e o resto do mundo perdidos e infelizes para sempre nessas nossas histórias perdidas e solitárias sobre estar do lado, sobre ser e não ser e perder e ganhar e olha, você me fez de jambo podre tantas vezes enquanto eu me perdia por entre as noites quentes da cidade entre as ruas vazias, entre os travestis nas esquinas e os bêbados e os mauricinhos e as patricinhas e postes mal iluminados e por uma embriaguez que afunda em meu peito pássaros que sufocam agonizantes enquanto as espadas de dores cortam seus frágeis pescoços de esperança. Estamos, com toda certeza, num ponto onde não gostaríamos de estar porque nós dois e todo o mundo já viveu isso de não querer estar nesse ponto. Nossos espíritos ou qualquer coisa nesse sentido que possamos compreender e que está acima de nossa podre razãozinha estão naufragando em dias e horas e tempos em que tudo está vazio nos céus. Em que a margem ainda é distante e ainda não alcançamos nada além de feridas e gritos sufocados enquanto no espaço os cometas derramam-se por sobre a existência de coisas que a gente não pode sequer compreender por sermos tão inconsistentes e não-objetivos entre nós dois. Talvez seja isso mesmo. Infelizes para sempre. Sós os dois. O mundo inteiro. Os vagabundos que amanhecem pelas ruas no domingo e as estrelas e os sonhos e toda nossa vontade de estar com mas apesar de. Andróides dentro de uma underground programação, eu e você, numa liberdade que aprisiona.

terça-feira, 23 de junho de 2009

O prólogo dos prólogos para uma historia sobre baratas, amnésias e

No início, era apenas um branco. Desses, que apagam tudo o que antes estávamos pensando em dizer em pensar em agir ou qualquer outra ação concreta ou abstrata. Porque existe um limite entre os pássaros e os morcegos em que é preciso ter muito mais do que coragem para atravessar.

No início, eu estava dizendo, no início era apenas uma sensação de esquecimento, e que me fazia assim, um livro de amnésias, afogado onde jamais poderia alcançar qualquer tipo de recordação antes dessa vida, entre esse quarto, entre essa cidade: urbanífera, chuvosa e piterodactila.

Ela devorava lentamente o branco do leite em pó umedecido no garfo, com suas pequenas patas, quando a esmaguei contra a minha sandália. Espirrou de dentro de sua casca grossa uma grossa consistência branca que se misturou ao branco do leite no garfo. Havia algo entre aquele cruzamento de substâncias pastosas e aquele corpo morto de inseto que começava a emanar lembranças de outro momento que havia me esquecido, e que quando recordei, também descobri porque afinal me fizeram esquecer.

Não fosse ver aquele inseto devorar desesperadamente o leite endurecido no garfo que havia deixado na pia, não fosse aquela barata, jamais haveria me lembrado.

Eu me vi dentro do quarto branco, vestindo roupas brancas, porém sujas. Todos os dias, eles entravam com um balde de baratas mortas, estouradas e exalando um odor forte.
E me amarravam. A princípio, eu resistia. Mas a rotina de todos os dias me espancarem até que eu cedesse ou que desmaiasse foi me cansando e em alguns dias eu já aceitava sentado eles me forçarem a comer todo aquele balde de baratas úmidas, imundas e salgadas. Era minha única refeição no dia. Tive crises de vômito e muita diarréia logo no começo, depois meu organismo foi se acostumando e assim como eu, já aceitava sem grandes reações os banquetes de baratas.

Eles vinham sempre os três. Uma mulher nariguda, suada e fedida a sebo, magra demais, aparentando cerca de cinqüenta anos, um homem com pêlos crespos por todo o corpo, inclusive no rosto e um rapaz, que devia ter lá pelos seus quinze, no máximo dezoito. Todos três tinham caudas peludas e longas. Um dia, quando me traziam rotineiramente a minha ceia de baratas, percebi que o rapaz, me olhava de um jeito diferente. Com um ar de pena, talvez. Percebi que ele, ao contrário dos outros dois, parecia não gostar do que estava fazendo.

A verdade é que jamais entendi porque estava ali, como fui parar naquele lugar. Não me lembro de uma infância, de ter pais ou coisa do tipo. Minha primeira memória é sobre esse quarto, sobre esses três. De alguma forma, tinha noção do mundo e das coisas, mas não havia em mim lembranças pessoais de nada. Apenas estava ali.

Não me lembro como sai daquele lugar, como cheguei a essa vida, apenas me lembro de já estar aqui e não mais naquele quarto mofo e branco. Vez em quando ainda encontro baratas pela casa e vou juntando uma por uma, até encher um pequeno pote, onde posso sempre desfrutar de meu acostumado sofrimento que se transformou em satisfação.

sábado, 6 de junho de 2009

Sobre bandas de garagem e um pouco de soda cáustica: o Jovem Messias Marciano existe na quarta-feira

Eu, Saulo, Adnoel e Raoni numa madrugada sonâmbula em dezembro de 2007

Caminha como se atravessasse a entropia do tempo a cada passo, entre as luzes raras nas esquinas da cidade porto. Num ritmo asmático, cúmplice de sua desrelfexão sobre a noite, o jovem messias marciano mergulha em lembranças de tudo o que então absorveu: fábulas, consumos, dias, noites, versos, amores e dores e uma vontade inexorável da auto-inexistência.

Adentra no bar vazio pela quarta-feira e faz companhia as canções de Odair José, que emanam solilóquias entre a maré de redundâncias sentimentais comercializadas no pensar dos poucos que ali procuram qualquer coisa como “alémdasnossasmiseráveisdoresqueregurgitamosemtodososdiasdetodososanosdenossaspodresdoresecoreseexistências”...

A procura de um ambiente que o torne algo que não lhe faça de fantoche, do que já percebera ser um grande espetáculo, o jovem marciano resolve que irá cantar óperas urbanas do século XXI nas sextas e domingos, nos bares ambidestros da cidade porto. Regerá com guitarras e buzinas de carros de pipoca sua própria orquestra, insinuando homicídios a cada refrão. Assim ele pensa, conseguirá continuar a sobreviver nessa muito medonha jornada entre os leões ferozes e velozes que devoram a cada dia um novo pedaço de seu espírito de relâmpago desesperado...

Assim, ele caminha, atravessando buracos negros e vulcões cósmicos, a cada passo-canhoto que dá nas ruas de dias asmáticos...

sábado, 30 de maio de 2009

O Desabafo do Jovem Messias Marciano: entre Laranjas e Maçãs



Para Ensor

Ele caminha só, pelas areias de uma geografia conhecida. É fim de tarde chuvosa e o Jovem Messias Marciano acompanha em seus passos e em seu pensar o descompasso asmático do rio que copula em frenesi com a orla luminosa de outdoor’s da cidade porto. Caminha só, enquanto automóveis e motocicletas cospem a canção de seus motores, de suas vidas gonorrélicas e piterodáctilas. O céu cinza e inconsistente do fim de tarde psicótico da cidade porto é banhado por uma revoada um pouco mais cinza de pequenos pássaro-morcegos que mordem ferozes o oxigênio tragado a esmo pelo Jovem Messias...

Até quando construiremos jardins de natureza morta

para os senhores que aram o perfume do dia

com espadas de desespero que cortam suaves

nossas cabeças pensantes e desreguladas?!

Dessentiremos o calor das estrelas

nas noites robustas em que as equações nas areias do rio

apontarem caladas para o fim de todas as gigantescas desmesuradas paixões

que se aborrecerem odoríferas por minha singela e preguiçosa omissão.

Apanharei como leopardo aleijado

o teu coração das entranhas velozes do dragão

de sistema digestivo mecânico e oxítono.

Até quando sentirei omisso o aço sonoro se derramar sanguinário

no osso roído e seco dos que não se percebem

mas se destroem girando pulsantes no interior da caverna espacial

constituída de furacões?!

Meu vôo ao teu coração ateu não será destruído

pela titubeante jornada que sigo escrevendo hemorrágico

e alegre apesar de não me agradar com o sangue nos céus.

Não sei mais até quando sentir meu cérebro se desfazer

em diarréia mental enquanto escuto teu coração com fome

dormir ouvindo a espada refletir cachoeiras enferrujadas de desesperos

sobre os raios ultravioletas da luz do dia verde em película super 8mm.

Bem vindos todos nós a máquina do dia!

Celebremos entre laranjas e maçãs o carnaval dos tambores podres! Contemos histórias psicodélicas para dormir enquanto o globo gira vertiginoso e redundante, como uma linha de montagem espacial, enquanto as máscaras esqueléticas disputam desesperadas o cadáver dos andróginos enforcados.

Ele se retira do palco como se dormisse, ele acompanha sereno por seu caminhar as luzes amareladas de postes e casas das ruas de barro dessa cidade. Ouve ainda, distante, enquanto avança o silêncio sonoro de estupros e assassinatos, traições e prostituições. Ele se retira do palco como se dormisse... e apenas segue.