a mais perfeita visão de um céu de chumbo
curvando-se sobre um horizonte de águas.
(Luli Rojanski, “Sob o Céu, no Trapiche”)
O quarto iluminado apenas pelo feixe de luz que atravessa timidamente do banheiro. O quarto escuro e abafado abafa as cores das paredes que outrora foram brancas e que agora se mistura a um verde de lodo e infiltrações que assim, vistas a meia luz lembram rachaduras num solo dum deserto qualquer ou até imaginário.
- Por onde?
- Estranho agora ter que te dizer dessa forma, sem te dizer, mas com você já sabendo
- Eu acho estranha essa tua sina de tentar falar como nos filmes
- Aforismos
- Babaquices
- Me desculpa por ser tão teu
- me desculpa por ser tão Teu
Os dois falaram assim, um num tom mais alto outro num tom mais baixo, mas diziam a mesma coisa, se desculpando pelo mar de possessões que os invade ao mesmo tempo em que se afogam num amor desesperado, avassalador...
- mergulhar
- domingo? Onde?
- Em ti?
- Em ti
- Mais uma dose?
- sim, sim
Iluminados não apenas pela luz que invadia o quarto possuíram-se uma vez mais como se nada mais houvesse e até sabendo que talvez a única forma de estar um com o outro para sempre seria apenas e simplesmente possuindo-se uma vez mais num convulsivo choque de corpos que buscavam o que já sabiam como encontrar no par, como leões que por instinto sabem o que precisam caçar.
- é que to num outro momento, algumas coisas cansaram, não exatamente você
- você também não me cansou...
Despedaçaram-se porque antes eram um. Como num velho filme numa velha cena já vista imaginada em tantos outros lugares do mundo ele vestiu as roupas e caminhou numa manhã de domingo ensolarada. Os raios mornos do sol levemente bronzeavam os restos de prazer em seu corpo que agora seguia em passo confuso para onde se misturaria ao resto das pessoas que caminhavam pela praça com suas crianças, cães e derivados. Ele trazia consigo um velho dragão no peito e asas no bolso da calça. Esperaria o momento certo de voltar a voar o arcanjo Miguel. Enquanto isso seguia em passos despassos e fazia-se assim de homem-massa no meio da multidão.




